
No livro "A falência dos deuses: a idolatria moderna e a missão cristã", de Vinoth Ramachandra, São Paulo: ABU, 2000 (*), encontrei no capítulo 2 este imperdível texto, que transcrevo abaixo:
"... a união com Cristo consiste na mais íntima comunicação com ele, tendo-o diante de nossos olhos e em nosso coração, e sendo assim tomados pelo mais elevado amor por ele, ao mesmo tempo em que voltamos o nosso coração aos nossos irmãos, com os quais ele nos ligou, e por quem ele trambém se sacrificou..."(**)
Estas palavras fazem parte de um ensaio escolar escrito por um estudante de 17 anos em 1835. O seu nome era Karl Marx. Sim, o mesmo Karl Marx cujos livros e panfletos mudaram toda a face deste século e em nome de quem um número incalculável de cristãos e de pessoas de outras religiões foi morto. Marx proveio de uma longa linguagem de rabinos judeus pelos dois lados de sua família. Seu pai, Heinrich Marx, foi um judeu liberal que recebeu o batismo cristão por razões de conveniência social. Karl foi batizado ainda criança e criado num ambiente cristão que profundamente influenciou o seu futuro desenvolvimento. Mas como foi que esse jovem tão sério, de formação religiosa, veio não somente a rejeitar a sua fé religiosa durante os seus dias na universidade, mas acabou tornando-se talvez o mais famoso ateu da história?
As razões são complexas. Mas duas que se destacam são: em primeiro lugar, a sua amizade com um grupo de teólogos "radicais" que, sob a influência do racionalismo que na Alemanha havia recentemente entrado nos estudos bíblicos, declarou que as narrativas do evangelho eram lendas que não poderiam mais servir como fonte para a história de Jesus de Nazaré, mas apenas para a história da igreja primitiva. Conquanto aqueles teólogos continuassem a se autodenominar cristãos, crendo que poderiam reter as verdades do Cristianismo ao mesmo tempo em que destruíam a sua base histórica, Marx todavia foi além deles e viu as consequências das suas teorias: pois se os evangelhos não dão um quadro confiável de Jesus Cristo, por que então incomodarmo-nos com ele?
Mas a segunda razão, mais relevante para nossos presentes propósitos, tem a ver com a maneira pela qual Marx via o modo pelo qual as religiões em geral, e o Cristianismo em particular, eram praticadas na sociedade alemã de seus dias. A religião era usada pelas classes dominantes para sancionar o status quo. Ela justificava as iniquidades e os sofrimentos da presente ordem social, explicando-os como sendo o árduo trabalho necessário para uma ordem transcendente, eterna. Assim como as doutrinas das castas, do carma e da reencarnação têm muitas vezes propiciado em muitas das culturas asiáticas a aceitação passiva, pelas pessoas, de suas condições materiais e sociais, e também uma indiferença para com qualquer tentativa de transformar este mundo, da mesma forma na Europa do século dezenove as igrejas oficiais aceitaram como verdade que a "vontade divina" refletia-se na presente ordem das coisas, e, consequentemente, rejeitar a presente ordem seria o equivalente a uma rebelião contra Deus. A compensação pelos sofrimentos por que se passasse não seria mediante mudanãs materiais neste mundo, mas ocorreria num outro mundo depois da morte. Essa postura tão popular acha-se inserida de forma resumida num hino inglês bastante conhecido que ainda é ensinado hoje em dia em algumas escolas bíblicas dominicais:
As razões são complexas. Mas duas que se destacam são: em primeiro lugar, a sua amizade com um grupo de teólogos "radicais" que, sob a influência do racionalismo que na Alemanha havia recentemente entrado nos estudos bíblicos, declarou que as narrativas do evangelho eram lendas que não poderiam mais servir como fonte para a história de Jesus de Nazaré, mas apenas para a história da igreja primitiva. Conquanto aqueles teólogos continuassem a se autodenominar cristãos, crendo que poderiam reter as verdades do Cristianismo ao mesmo tempo em que destruíam a sua base histórica, Marx todavia foi além deles e viu as consequências das suas teorias: pois se os evangelhos não dão um quadro confiável de Jesus Cristo, por que então incomodarmo-nos com ele?
Mas a segunda razão, mais relevante para nossos presentes propósitos, tem a ver com a maneira pela qual Marx via o modo pelo qual as religiões em geral, e o Cristianismo em particular, eram praticadas na sociedade alemã de seus dias. A religião era usada pelas classes dominantes para sancionar o status quo. Ela justificava as iniquidades e os sofrimentos da presente ordem social, explicando-os como sendo o árduo trabalho necessário para uma ordem transcendente, eterna. Assim como as doutrinas das castas, do carma e da reencarnação têm muitas vezes propiciado em muitas das culturas asiáticas a aceitação passiva, pelas pessoas, de suas condições materiais e sociais, e também uma indiferença para com qualquer tentativa de transformar este mundo, da mesma forma na Europa do século dezenove as igrejas oficiais aceitaram como verdade que a "vontade divina" refletia-se na presente ordem das coisas, e, consequentemente, rejeitar a presente ordem seria o equivalente a uma rebelião contra Deus. A compensação pelos sofrimentos por que se passasse não seria mediante mudanãs materiais neste mundo, mas ocorreria num outro mundo depois da morte. Essa postura tão popular acha-se inserida de forma resumida num hino inglês bastante conhecido que ainda é ensinado hoje em dia em algumas escolas bíblicas dominicais:
O rico em seu castelo, e o pobre em sua guarita,
Deus os fez, nobre e humilde, cada um com sua vida.
(de "All Things Bright and Beautiful" -
Todas as Coisas Brilhantes e Belas).
Todas as Coisas Brilhantes e Belas).
(*) Tradução de Milton Azevedo Andrade.
(**) Karl Marx, "A União dos Crentes com Cristo de Acordo com João 15.1-14, Mostrando sua Base e Essência, sua Absoluta Necessidade, e seus Efeitos", em Karl Marx & Friedrich Engels, Collected Works (Obras Selecionadas) - Londres; Lawrence & Wishart, 1975, vol. 1; pp. 636-9.


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